Escrito por Fabián Echegaray*
Foto: Banco de imagens / Pexels
Assumimos a fase dos 50 em diante como um período de recomeço e redescoberta. Recomeço profissional após ter atingido o ápice da carreira. Recomeço existencial diante do ninho vazio. Recomeços de hobbies e desafios próprios ao sobrar tempo e recursos fruto da boa gestão monetária ou da aposentadoria.
Menos frequente é o reconhecimento dos recomeços amorosos, talvez porque permanecem invisibilizados como tema, fruto do pendor midiático a associar paixões e novos relacionamentos à fase juvenil ou início da vida adulta. Mas não seria errado reconhecer que essa imperceptibilidade responde, também, à ambivalência com que esse segmento de maduros encara o recalcular de rota no plano afetivo-amoroso.
O que significa voltar à cena dos encontros românticos e a busca por novos laços após os 50? Essa pergunta costuma se deparar antes com mais perguntas do que respostas, porque a experiência acumulada até a vida madura termina privilegiando imperativos e mandatos que muitas vezes nos afastam da possibilidade de recomeços, ao invés de multiplicar essas oportunidades como canalizadoras da liberdade e da sabedoria colhidas.
Os adultos maduros chegam ao desafio do recomeço romântico com expectativas, mas também com seus traumas e condicionamentos. De um lado, eles visam reinventar a relação afetiva como um refúgio social, um trampolino para recuperar um senso de pertencimento ao valorizar a cumplicidade, o compartilhar e a convivência sem sacrificar o desejo. De outro lado, existe a autoexigência de respeitar o próprio espaço pessoal e garantir a autonomia alcançada, muitas vezes projetada como suficiência e blindagem contra ameaças à individualidade desenvolvida.
Essa segunda orientação de vida privilegia a autogratificação e autorrealização, fugindo dos riscos que interações e compromissos possam representar para a ideia de equilíbrio, satisfação ou plenitude individual, mas sem enxergar que o risco final pode resultar no isolamento. Não é difícil concluir que ambas as forças caminham em direções contrárias.
A maturidade da idade deveria munir de mais recursos para negociar essas forças em potencial conflito e navegar a complexidade resultante, mas não garante resultados para ninguém. Também não imuniza contra sentir vividamente novas paixões como torrentes vorazes desestabilizadoras ou êxtases que revitalizam o mundo pessoal e contagiam positivamente outras esferas da vida.
Os problemas de evitação afetiva, dependência emocional, sujeição a amores tóxicos ou narcisistas e uma longa lista de etecéteras (que parecem povoar as relações de gente mais nova) também podem aparecer, embora com um dramatismo menor. Só que ninguém está inoculado contra sofrer (ou impor) tais situações.
O amor após os 50 precisa sair da invisibilidade (ou evitar morrer nos clichês obsoletos, quando, cada vez mais, os 60 parecem ser os novos 40). Podemos pensar o recomeço amoroso depois dos 50 anos como um exercício de autoconhecimento, revisão de expectativas e coragem para estabelecer vínculos sem perder a própria identidade.
No ar, interpelando todos, mas especialmente quem já viveu várias décadas de experiências, os interrogantes exigem elaborar melhor e de modo prático sobre como se relacionar com o outro sem confundir amor com idealização, desejo com necessidade de validação e compromisso com a renúncia à liberdade individual. Talvez seja hora de filmes, romances, músicas e outros formatos de histórias ilustrarem, narrarem e representarem essas cenas.
*Fabián Echegaray é escritor e autor do livro "Tango Feroz", que narra a história do fim do relacionamento de um casal maduro, deslanchando uma busca frenética por sentido envolvendo desejo, ressentimento e autoengano
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