CBCSI debate reforma tributária, Código Civil e novas dinâmicas do mercado imobiliário

Encontro reuniu especialistas e lideranças do setor para discutir segurança jurídica, mudanças legislativas e tendências da locação em 2026

A Câmara Brasileira de Comércio e Serviços Imobiliários (CBCSI) realizou, na sexta-feira (20), a primeira reunião de 2026 na sede da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) no Rio de Janeiro, com uma pauta extensa voltada aos principais desafios regulatórios, jurídicos e econômicos do setor imobiliário. O encontro reuniu representantes das Federações, especialistas convidados e técnicos da entidade para discutir desde a reforma do Código Civil até os impactos da reforma tributária e as tendências da locação para os próximos anos. 

A abertura foi conduzida pelo coordenador da CBCSI, Kelsor Gonçalves Fernandes, que destacou o esforço para realizar o encontro na capital fluminense, em virtude da agenda institucional do setor, e reforçou a necessidade de objetividade diante da pauta extensa. Na sequência, o coordenador-geral das Câmaras do Comércio da CNC, Luiz Carlos Bonh, deu as boas-vindas aos participantes. A reunião foi mediada pela gerente da Assessoria das Câmaras Brasileiras do Comércio e Serviços (ACBCS), Andrea Marins.   

Reforma do Código Civil 

Um dos principais temas debatidos foi a proposta de reforma do Código Civil, apresentada pelo professor Paulo Doron. Em sua exposição, ele alertou para a amplitude das mudanças previstas e os riscos para o ambiente econômico. 

“O Código Civil é a lei mais importante para o cidadão […] e pauta três conceitos fundamentais: propriedade, contrato e empresa. Sem esses pilares, não há economia”, afirmou. Segundo ele, a proposta em discussão no Senado altera mais de mil dispositivos, o que, na prática, representa a criação de um novo código. 

Doron ressaltou preocupação com mudanças que podem fragilizar a segurança contratual, especialmente pela introdução de conceitos indeterminados. Ele destacou que princípios como o que diz que “o contrato faz lei entre as partes” podem ser relativizados, impactando diretamente setores como o imobiliário, fortemente baseado em garantias e previsibilidade jurídica. 

Segurança jurídica e relações de trabalho

A discussão sobre segurança jurídica nas relações de trabalho e prestação de serviços também teve destaque. O advogado Felipe Montenegro Mattos, convidado, falou dos conflitos inerentes à relação entre capital e trabalho e da necessidade de maior previsibilidade.

 “A gente começa falando em segurança jurídica e percebe que não tem nenhuma segurança. O grande erro é não entender o risco e não calcular esse risco nas contratações”, afirmou.

 Já o advogado Fernando Abdala chamou a atenção para o papel do Judiciário na determinação de regras práticas do mercado. Ele citou decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre terceirização e destacou a importância de julgamentos futuros que podem redefinir a competência para análise de contratos entre pessoas jurídicas.

 “O Supremo vai decidir se a suposta fraude em contratos entre pessoas jurídicas será analisada pela Justiça do Trabalho ou pela Justiça comum. Isso muda tudo, porque altera a presunção e o ônus da prova”, explicou.

 Abdala também destacou a insegurança envolvendo modelos como pejotização, sociedades e cooperativas, frequentemente reavaliados pela Justiça do Trabalho.

 Reforma tributária traz incertezas e novos desafios

 Outro ponto central da reunião foi a reforma tributária e seus impactos no setor imobiliário. O consultor tributário da CNC, Gilberto Alvarenga, ressaltou que o tema ainda gera incertezas e exigirá atenção redobrada das empresas.

Entre os pontos destacados, está o início da transição para o novo sistema a partir de 2027, com a substituição de tributos como PIS e Cofins pela CBS, além da criação do IBS.

 Alvarenga também chamou a atenção para possíveis incidências tributárias em operações comuns no setor, como a utilização de imóveis por sócios em holdings patrimoniais, prática amplamente utilizada para planejamento sucessório e organização de ativos.

Segundo ele, a reforma pode introduzir tributação sobre cessões gratuitas ou a valores abaixo do mercado, desde que o imóvel tenha gerado crédito tributário, tendo como base o valor de mercado.

Além disso, o consultor destacou que operações de locação, cessão onerosa e arrendamento poderão ter redução de alíquota de até 70%, enquanto outras operações imobiliárias terão redução de 50%, dentro do novo modelo IBS/CBS.

 “O poder arrecadatório deste país não simplifica, complica”, afirmou Kelsor Fernandes, ao comentar o cenário de transição e a expectativa frustrada de simplificação tributária.

 Tendências de locação

A reunião também apresentou um panorama do mercado de locações em 2026, com a exposição de Moira Toledo, da Fecomércio-SP. O levantamento aponta mudança estrutural no comportamento do consumidor, com menor apego à propriedade e maior valorização da experiência de moradia.

Dados indicam que os aluguéis residenciais cresceram 9,44% em 2025, acima da inflação, enquanto cerca de 23% dos domicílios brasileiros já são alugados, em tendência de alta.

Para Moira, um ponto de preocupação é manter a atratividade do investimento no setor para garantir a oferta e assim a manutenção de preços, diante de um cenário de juros altos e aumento do custo tributário.

No mais, o foco do mercado deve ir além do imóvel em si. “O futuro da locação não é só sobre imóveis. É sobre experiência”, destaca a apresentação.

Entre as tendências, estão a digitalização da jornada do cliente, o uso de inteligência artificial e a busca por qualidade de vida e conveniência.

 Agenda legislativa

 A reunião também tratou do acompanhamento legislativo conduzido pela Diretoria de Relações Institucionais (DRI) da CNC, com destaque para propostas que impactam diretamente o setor.

Entre elas, o PL 871/2022, que trata das regras de locação e do aviso de reajuste de aluguel, e o PL 6.456/2019, que propõe a obrigatoriedade de quitação mensal de débitos, considerado pela CNC como medida que pode elevar custos operacionais.

Também foram discutidas propostas de redução da jornada de trabalho (escala 6×1), regularização da atividade de síndico profissional e mudanças no Simples Nacional.

Ao término da reunião, Kelsor Gonçalves Fernandes enfatizou a importância da continuação dos debates técnicos e da atuação conjunta do setor diante dos desafios regulatórios.

Leia a cartilha da CNC sobre a manutenção das 44 horas semanais e a negociação coletiva

Julio Cesar Guimarães-4593

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