“Começo na segunda”, “não tenho tempo”, “minha genética não ajuda”: por que essas desculpas sabotam o emagrecimento

“Na maioria das vezes, o problema não é falta de informação, mas as concessões que a pessoa faz para aliviar o próprio desconforto”, afirma o médico Gabriel Almeida

Foto: Diana Polekhina

Quase todo mundo que tenta emagrecer já se pegou repetindo alguma dessas frases. Elas surgem em dias cansativos, semanas estressantes ou momentos de frustração, sempre com um tom convincente. O problema é que, quando essas justificativas se acumulam, o emagrecimento deixa de ser interrompido por exceções e passa a ser bloqueado por padrão. É nesse ponto que a auto-sabotagem entra em cena.


A auto-sabotagem não costuma aparecer como desistência explícita. Ela se manifesta em decisões aparentemente pequenas, como adiar o início do plano, flexibilizar demais a alimentação após um dia difícil ou aceitar que o cansaço é motivo suficiente para não se movimentar. Essas escolhas aliviam a pressão imediata, mas mantêm o comportamento que impede o avanço. O processo não falha por desconhecimento, falha porque o desconforto da mudança é constantemente negociado.

Segundo o cirurgião geral Gabriel Almeida (CRM 180956), que também atua com acompanhamento em emagrecimento, uma das desculpas mais comuns é a falta de tempo. “O discurso do ‘não tenho tempo’ geralmente esconde uma dificuldade de priorização. Não é ausência de horas, é excesso de concessões”, explica. Quando a rotina está cheia, qualquer esforço extra parece pesado, e a saúde acaba ficando sempre para depois.

Outra justificativa frequente é a genética. Embora fatores hereditários influenciem o metabolismo, usá-los como sentença definitiva costuma funcionar como um freio emocional. A pessoa se convence de que não adianta tentar e reduz o próprio investimento no processo. “A genética pode interferir no ritmo, mas não impede a mudança. Quando ela vira desculpa, o comportamento já foi abandonado antes mesmo da tentativa”, afirma o médico.

A promessa constante de recomeçar também faz parte desse ciclo. O clássico “segunda-feira eu volto” cria a sensação de controle sem exigir ação imediata. O adiamento vira conforto, e o início nunca chega. Com o tempo, a pessoa não apenas deixa de emagrecer, como passa a desconfiar da própria capacidade de cumprir o que promete.

Há ainda a fome emocional, muitas vezes disfarçada de merecimento. Comer passa a ser recompensa após dias difíceis ou alívio para ansiedade e frustração. O problema não está no ato isolado, mas na repetição. “Quando a comida vira resposta automática ao estresse, o emagrecimento deixa de ser uma questão nutricional e passa a ser comportamental”, explica Gabriel Almeida.

Para o médico, romper a auto-sabotagem exige mais honestidade do que rigidez. Em vez de buscar perfeição, o caminho está em reconhecer padrões e reduzir as negociações internas. “O emagrecimento começa a andar quando a pessoa para de discutir consigo mesma todos os dias e passa a criar acordos mais claros”, afirma.

No fim, as desculpas não são o problema em si. Elas são sintomas. Sintomas de cansaço, sobrecarga, medo de falhar ou dificuldade de mudar a rotina. Quando isso é reconhecido, o processo deixa de ser uma briga interna e passa a ser uma reorganização possível. Como resume Gabriel Almeida, “quem entende por que se sabota, começa a parar de se sabotar”.

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